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As eleições legislativas de 2026 realizaram-se a 17 de maio, com mais de 416 mil eleitores inscritos chamados a escolher os 72 deputados da Assembleia Nacional. Os resultados provisórios, com 98,1% das mesas de voto apuradas, apontam para uma vitória do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), que recolhe 46,7% dos votos, correspondentes a 33 deputados.
O Movimento para a Democracia (MpD), que buscava o terceiro mandato consecutivo, fica em segundo lugar com 43,6% e 30 deputados. A União Cabo-Verdiana Independente e Democrática (UCID) mantém representação parlamentar com 5,1% e dois deputados . Estes números traduzem uma alternância política num país que, desde 1991, tem sido um exemplo de estabilidade democrática em África, com os dois maiores partidos a alternarem na governação de forma pacífica e institucional.
Um dado que merece reflexão estratégica é a abstenção de 53,4%, valor significativamente superior aos 42,2% registados em 2021 . Este indicador sugere um descontentamento ou desconexão de uma fatia importante da população com a política partidária tradicional, o que poderá influenciar a agenda do próximo governo, nomeadamente nas políticas de proximidade, emprego jovem e custo de vida.
Cabo Verde é reconhecido internacionalmente como um dos sistemas democráticos mais estáveis do continente africano. A transição de poder, caso confirmada pelos resultados finais da Comissão Nacional de Eleições (CNE), será mais uma prova da maturidade institucional do país.
Para o empresário e o investidor estrangeiro, esta estabilidade é um ativo fundamental. O relatório da consultoria In On Africa (IOA) salienta que Cabo Verde se posiciona como um mercado estável, combinando estabilidade política, abertura ao comércio e políticas favoráveis ao investimento, ocupando a terceira posição no ranking dos países mais liberais economicamente da África Subsaariana.
Contudo, a vitória do PAICV, liderado por Francisco Carvalho, presidente da Câmara Municipal da Praia, introduz um novo ciclo político. Durante a campanha, o PAICV apostou na gratuitidade do ensino, no acesso à saúde e na redução dos custos dos transportes interilhas. O MpD, por seu lado, defendia a continuidade da gestão económica, prometendo melhorias no serviço nacional de saúde, aumento de salários e reforço da economia.

A alternância política em Cabo Verde raramente traduz rupturas económicas radicais, dada a consensualidade em torno de grandes linhas estratégicas. No entanto, o novo ciclo legislativo traz nuances importantes para quem opera ou pretende investir no arquipélago.
O Acordo de Concertação Estratégica 2024-2026, instrumento que orienta a política económica do país, previa uma redução gradual do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas (IRPC), com vista a atingir uma taxa flat de 15% a médio prazo, acompanhada da racionalização de benefícios fiscais e da consolidação da fatura eletrónica. É expectável que o novo governo mantenha esta trajetória, dado o compromisso internacional com a modernização fiscal e a atracção de investimento direto estrangeiro (IDE).
Para as empresas instaladas, isto significa previsibilidade. Para novos investidores, representa uma janela de oportunidade para entrar num mercado com carga fiscal em descida e administração tributária cada vez mais digital e robusta.
A coordenadora residente das Nações Unidas em Cabo Verde, Patrícia Portela, destacou em final de 2025 que o país se encontra num ponto crítico em que precisa do apoio forte dos parceiros internacionais e do setor privado, sobretudo na transição digital, energética e na economia azul. Cabo Verde tem investido na abertura de parques tecnológicos na Praia e no Mindelo, na modernização dos serviços públicos digitais e no reforço do parque eólico e solar, com a meta de atingir 50% de eletricidade de origem renovável até 2030.
Para investidores nas áreas de tecnologia, energias renováveis e serviços digitais, este é um cenário propício. A digitalização da administração pública, incluindo a Autoridade Tributária e Aduaneira (ATCV), cria demanda por soluções de software, cibersegurança e consultoria em conformidade digital.
O turismo continua a ser o motor da economia cabo-verdiana, representando cerca de 20% do PIB e impulsionando um crescimento de 7,3% em 2024. O Plano Operacional do Turismo (POT 2022-2026) prevê investimentos de cerca de 200 milhões de euros centrados na requalificação da oferta, sustentabilidade e qualificação profissional. A meta é atingir 1,2 milhões de turistas em 2026.
No entanto, o país enfrenta o desafio da diversificação. A economia permanece vulnerável a choques externos e dependente da mão-de-obra intensiva. O novo governo terá de acelerar políticas que estimulem a agricultura, a pesca, a economia digital e as indústrias criativas, criando oportunidades para investimentos nichados.
Cabo Verde funciona como um ponto de ligação estratégico entre a União Europeia e a África Ocidental, com acesso ao mercado da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Os processos de abertura de empresas são simplificados, podendo ser concluídos em 24 horas nas Casas do Cidadão. Esta agilidade, combinada com a estabilidade política recém-confirmada, reforça o posicionamento do país como plataforma de entrada para mercados africanos.
Com base no cenário político e económico pós-eleitoral, identificamos os seguintes vectores de oportunidade para empresários e investidores:
| Sector | Oportunidade | Contexto Político-Económico |
|---|---|---|
| Turismo e Hospitalidade | Requalificação da oferta, turismo rural, nómadas digitais | POT 2022-2026, regime de utilidade turística, programa Remote Working |
| Energias Renováveis | Eólico, solar, armazenamento de energia | Meta 50% renováveis até 2030, investimento em infraestruturas |
| Tecnologia e Digital | Serviços públicos digitais, fintech, e-commerce | Transição digital acelerada, parques tecnológicos, inclusão financeira |
| Pesca e Economia Azul | Aquicultura, processamento, exportação | Foco na economia azul, blue bonds, fundo climático e ambiental |
| Imobiliário e Construção | Habitação, infraestruturas turísticas, escritórios | Custo de vida e habitação foram temas de campanha; demanda por stock habitacional |
| Consultoria e Serviços Empresariais | Fiscalidade, compliance, gestão de projetos | ATCV operacional, exigência crescente de conformidade fiscal e digital |
Apesar do cenário favorável, investidores e empresários devem estar atentos a determinados riscos e desafios:
A alternância governativa, mesmo num contexto de estabilidade, gera sempre incerteza operacional para quem gere negócios. Novas prioridades ministeriais, reconfigurações de secretarias de Estado e alterações na gestão de programas de apoio exigem um parceiro local que conheça o terreno institucional.
A S&D Consultoria posiciona-se como esse parceiro. Compreendemos que o investimento em Cabo Verde não depende apenas das taxas de juro ou do regime fiscal, mas da capacidade de navegar com sucesso nas estruturas administrativas, nos programas de financiamento e na conformidade regulatória.
As legislativas de 2026 confirmam Cabo Verde como um caso raro de maturidade democrática em África. A alternância pacífica de poder, a estabilidade macroeconómica consolidada (com reservas externas a superarem os mil milhões de euros e o país classificado como de rendimento médio-alto), e a aposta estrutural na digitalização, energias renováveis e economia azul criam um ecossistema favorável ao investimento.
Para o empresário e o investidor estrangeiro, a mensagem é clara: Cabo Verde oferece estabilidade política, previsibilidade institucional e um quadro fiscal em melhoria. O sucesso depende, contudo, de uma entrada no mercado bem preparada, com conhecimento local, conformidade desde o primeiro dia e uma estratégia adaptada às especificidades do arquipélago.
Fale connosco hoje mesmo. A S&D Consultoria está pronta para ajudá-lo a interpretar este novo ciclo político e a transformar oportunidades em resultados concretos para o seu negócio em Cabo Verde.